domingo, 20 de dezembro de 2009

OS ASSASSINOS...

Acham impossível, alguns simplesmente não entendem, outros se fazem de ignorantes e outros tantos, fingem acreditarem. Mas estou em todos os lugares, procurando ver de perto o que estão fazendo.
Às vezes bato insistentemente, pedindo para entrar e recebo um não de cara. Respondem-me do corredor, nem chegam à porta para me atenderem. Não sou bem vindo. Mas mesmo assim, dou um jeitinho e me faço presente, sem que me percebam.
Estou acompanhando o desmanche de mais uma central de distribuição de drogas, o seqüestro de mais um empresário honesto, a tentativa de estupro de uma bela menina, que apenas quer ser notada pelo rapaz que paquera, da pornografia da vida fútil do sexo, das pessoas da vida e daqueles que as mantém, trocando o prazer promíscuo do instante, por poucas cédulas. Vejo de perto filhos desrespeitando pais e pais espancando filhos, tentando apenas erradicar seus problemas.
Acompanho pessoas que utilizam o poder que conseguiram, para obterem sempre algo a mais em seu próprio benefício. Vejo profissionais, vendendo-se por simples trocados, deixando de assumir a responsabilidade que deveriam. Percebo assaltos onde bens como celulares, tênis de marca, bonés e míseros reais, passam a valer mais do que a própria vida. Acompanho as festas, os bailes, as baladas e a preocupação única de vender o corpo e aproveitar o instante como se fosse o único que existisse. Vivem o momento, vendem-se pelo prazer.
Estou presente nas discussões de trânsito, quando o motorista usa o seu meio de locomoção como uma arma, parecendo estar consumido pela raiva e pelo ódio. Vejo rapazes e moças perderem a vida pela imprudência, sofro ao ver pais de família atropelados por motoristas bêbados e crianças arrastadas pelas ruas como animais. Noto que armas modernas são criadas, com a desculpa da proteção de uma nação, mas que na realidade servem para a conquista do poder. Vejo povos inteiros, serem disseminados pela fome, quando com uma simples boa vontade o problema seria resolvido. Pessoas comem terra enquanto outros comem lagosta, com o sentimento único da individualidade. Vejo a indústria da guerra, onde pessoas morrem pelo interesse de bens e poder.
Fazem de conta que não me vêem. Sei que muitos, inclusive nem me conhecem, pois afirmam terem coisas muito mais importantes para se preocuparem, do que comigo. Pensando bem, passei para alguns a ser apenas mais um, no meio de todos.
Estou tentando registrar da melhor maneira possível, o que está levando estas pessoas a agiram desta maneira. Tenho que estar presente nestes momentos, como, aliás, estou em todos os outros locais, onde as pessoas perderam o sentido, a direção e o verdadeiro caminho.
Gosto de me fazer presente. Mas em alguns instantes, sinto involuntariamente, de que preciso achar melhores maneiras para ser notado. Muitos sequer me conhecem. Minha história já foi escrita, e gostaria simplesmente de que ela não servisse de modelo, mas apenas de direção. Confesso que às vezes sinto necessidade de interferir drasticamente, mas preciso conter-me.
Engraçado, sinto-me impotente.
Na verdade o caminho foi escolhido por eles mesmos, apesar de ter tentado de todas as maneiras, mostrar-lhes de que aquela direção não era a melhor.
Riem de mim. Fazem chacota. Virei motivo de piada. E Eu, presente em todos os momentos, mesmo imperceptivelmente, para alguns não sirvo para mais nada. Mas mesmo assim, quer queiram, quer não, estou próximo, presente. Sofro com suas dores e alegro-me com suas conquistas.
Abri portas, escancarei janelas, iluminei escuridões, mas simplesmente não me ouviram. E o pior é que eles mesmos sabem, de que a sua responsabilidade é ainda maior, pois apesar de não estarem fazendo a coisa certa, tornaram-se também responsáveis pelas outras vidas.
Preciso apenas que me queiram.
Pena que não perceberam que estão me matando aos poucos.
Morro a cada dia por todos eles.
Mas renasço com mais força.
Assassinaram-me a mais de dois mil anos atrás, e continuam hoje fazendo a mesma coisa.
Trocaram-me apenas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário